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Inovação em Sala de Aula: modismo ou necessidade?
Autor: Letícia Sampaio Suñé
Data: 14/11/2013 00:00:00

 Inovação em Sala de Aula: modismo ou necessidade?

 

Letícia Sampaio Suñé[1]

 

A inovação nos processos do ensino e da aprendizagem está na ordem do dia e a discussão de como fazer com que, de fato, aconteça na prática diária, está intensamente difundida nos meios acadêmicos.

Proliferam-se as capacitações de docentes envolvendo teorias pedagógicas e estratégias metodológicas. Navega-se pelas várias correntes de estruturação curricular. Fala-se em formação baseada em competências e aprendizagem significativa. Termos como PBL, TBL, POL, Peer Instruction, Estudo de Casos, Aula Invertida, Metodologia da problematização, são temas obrigatórios nos cursos, treinamentos e eventos que abordam a inovação em sala de aula. Há um grande conjunto de informações disponíveis, mas, por enquanto, poucos resultados efetivos na melhoria das práticas didáticas.

Poderíamos pensar então: quais as dificuldades da baixa adesão dos docentes à inovação do processo do ensino e da aprendizagem?

A primeira delas é a forma como os princípios pedagógicos e metodológicos são trabalhados nos treinamentos, sem uma abordagem sistêmica que possa demonstrar como a vasta gama de teorias fazem parte de um todo organicamente articulado que, se compreendido e bem utilizado, eleva a qualidade do processo do ensino e da aprendizagem com consequentes melhorias dos resultados de formação do profissional. O desenho curricular com suas diretrizes pedagógicas assim como as estratégias metodológicas para levar a cabo o currículo são peças que se articulam para que se alcance os resultados de aprendizagem desejados e o consequente perfil planejado para o egresso. Ademais, se não se aprende ouvindo, mas sim fazendo, é necessário que os docentes sejam treinados construindo os planos de aulas e atividades neles envolvidas, de modo a desenvolverem competências para inovar, fazendo e construindo suas abordagens e consolidando seus métodos.

Uma outra razão para a baixa adesão à inovação em sala de aula é a descrença da grande maioria dos docentes que julga essas abordagens inovadoras como modismos não necessários e uma grande perda de tempo. Esse ponto de vista é compreensível pois há muitas teorias e poucos resultados concretos de experiências bem sucedidas que exemplifiquem o como fazer, na prática, e mobilizem os docentes para a mudança. Tal descrença é reforçada pelo pensamento simplista que conduz ao seguinte questionamento: “se eu me formei com uma metodologia tradicional, e hoje sou um profissional bem sucedido, por que e para que mudar?”

É verdade que a quase totalidade dos profissionais vinculados ao mercado de trabalho formou-se dentro das diretrizes de uma pedagogia tradicional. Entretanto, será que saíram dos bancos da universidade com capacidade de resolver problemas inerentes às suas tarefas profissionais, ou passaram por um período de adaptação para atuarem de forma competente nas situações práticas reais? Alguém que aprendeu escutando tem as mesmas capacidades de quem aprendeu fazendo? Qual a razão de, a despeito da grande oferta de profissionais no mercado, considerar-se que há um “apagão de talentos”?

As respostas a estas perguntas indicam que alguma coisa não vai bem no processo de formação dos alunos. O mundo vem experimentando uma célere evolução da ciência e da tecnologia. Nos 40 últimos anos passamos da máquina de escrever para laptops e tablets, do telefone fixo para o móvel, e acompanhamos a evolução de Bytes para kilo, Mega, Giga e TeraBytes. Entretanto, a despeito de toda essa evolução, continuamos atuando em sala de aula da mesma forma como atuávamos há 40 anos atrás, com a diferença que escrevíamos no quadro e agora projetamos em um data show. Atualmente, nos deparamos com uma geração que apresenta um perfil totalmente distinto daquele que prevalecia no final do século passado demonstrando, entre outras habilidades, a capacidade de buscar a informação e de comunicar-se com grande rapidez, conectando-se com comunidades do mundo inteiro, principalmente pelo intenso uso das mídias sociais. Paralelamente, a quebra de fronteiras e a globalização trouxeram, entre os seus efeitos, uma alta competitividade econômica que exige dos profissionais a capacidade de colocarem-se sempre à frente do seu tempo, antecipando tendências, criando e inovando. Portanto, o processo do ensino e da aprendizagem exige processos formativos centrados nas necessidades atuais dos alunos e voltados para a formação de competências de modo que os habilitem a atender o perfil demandado pelos novos cenários profissionais.

E não é complicado desenvolver processos que levem a melhores índices de aprendizagem dos alunos. O cerne da questão é descobrir a melhor maneira do sujeito da aprendizagem (aluno) interagir com os objetos de estudo. Esta interação só pode ser feita por meio de “ações” que, por sua vez, são desenhadas pelas “atividades” realizadas dentro e fora da sala de aula. Portanto, a pertinência e a propriedade das ações desencadeadas pelos alunos são decorrentes da forma como as atividades são estruturadas, tomando como base os tipos de conteúdos a serem trabalhados (factuais, conceituais, atitudinais e procedimentais) e, como referência maior, os objetivos de aprendizagem que se pretende atingir. Nesse momento é que entram em cena os “métodos” trazendo “estratégias” que facilitem a estruturação de atividades. Estas atividades, por sua vez, devem configurar ações que atendam as seguintes características: grau de generalização (quando a ação encerra tarefas especiais que impliquem na habilidade de aplicar a atividade em condições novas); grau de desenvolvimento (quando permite ao aluno compreender a lógica da ação e explica-la verbalmente); grau de independência (quando possibilita a evolução da ação de uma forma compartilhada, até que o aluno atinja o ponto de executá-la de forma independente). Mas, para que isso aconteça, é necessária a existência de uma condição maior, ou seja, de um desenho curricular construído dentro das premissas de sistematicidade e integração, com objetivos de aprendizagem estabelecidos por eixos e componentes curriculares, que funcionem como elemento norteador e indutor do planejamento e do desenvolvimento das atividades em sala de aula. Esses são princípios básicos que possibilitam a inovação descomplicada e efetiva.

 

 



[1] Professora Titular Aposentada da UFBA. Doutora em Engenharia Química. Certificada em educação baseada em competências pela Academia Tuning. Avaliadora do SINAES (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior) e do Sistema ARCU-SUL (Acreditação Regional de Cursos Universitários).