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Pós-graduação faz diferença, mas não é só o que conta
Autor: Adelaide Rezende
Data: 1/8/2013 00:00:00

Não basta ter título de especialista, mestre ou doutor e falar vários idiomas. Para o mercado profissional, experiência, habilidades e atitude devem estar associados ao conhecimento. As grandes organizações estão buscando hoje para o seu quadro de funcionários, o chamado multi-skill, aquele profissional que tem competências para contextos diversos, um campo de visão mais amplo e foco no auto-desenvolvimento. No processo de seleção e contratação, a pós-graduação não implica, necessariamente, em salário maior, mas é um valor agregado que garante poder de barganha para negociar e um diferencial para se manter no mercado de trabalho.

Para a psicóloga e headhunter (caça-talentos), Sônia Costa, quem não investe na atualização profissional, em novos conhecimentos, novas técnicas, novas tecnologias, dificilmente terá uma carreira de sucesso na empresa. Ela lembra que antigamente o segundo grau era suficiente para arranjar um emprego e hoje o nível superior já é um critério básico nos processos de seleção. "O mestrado e o doutorado já são exigidos em áreas específicas, como energia, geologia, educação e saúde", ressalta Sônia Costa.
O aprendizado contínuo é imprescindível para que o profissional possa acompanhar a modernização da gestão de uma empresa. A área contábil, por exemplo, que antes era apenas técnica e operacional, passou a ser um setor estratégico de qualquer organização. "Hoje o contador não pode ser alguém que cumpre uma rotina de fazer cálculos, mas um profissional capaz de gerar relatórios que vão direcionar e influenciar as decisões da empresa", esclarece Costa.
O administrador de empresas, Paulo Dantas, 47 anos, 25 de carreira, acredita que o investimento em duas pós-graduações (uma especialização em recursos humanos e um mestrado em administração) foi essencial para o seu crescimento profissional. Hoje, como gerente de recursos humanos de uma multinacional da indústria química, ele não tem dúvida em afirmar: "A pós me deu informações para melhorar os meus argumentos, as apresentações de projetos e soluções, principalmente nos momentos de crise".
Na seleção de profissionais, Paulo Dantas procura identificar aquele candidato que se mantém atualizado, que tenha conhecimento, mas que também saiba executar e responder aos imprevistos. "Não excluímos quem não tem pós, até porque nem todo mundo pode pagar. Mas hoje as grandes empresas financiam e exigem a qualificação dos funcionários", ressalta.
Na fábrica onde Dantas trabalha, todos os engenheiros devem ter mestrado em meio ambiente, além de entender de finanças e gestão de pessoas. A empresa paga 70% dos custos com a capacitação. "A sociedade evoluiu e o mercado precisa acompanhar. Não há como fabricar um produto químico sem pensar nas consequências para o meio ambiente e para os moradores", contextualiza.
Bom comportamento
Aliado ao rol de competências técnicas, há também competências comportamentais que pesam na seleção e contratação do profissional. Características que vão além do que um título de pós-graduação possa oferecer em termos de conhecimento e domínio profundo de um assunto. Liderança, facilidade de relacionamento, capacidade de trabalhar em equipe e contagiar os colegas com bom humor e entusiasmo também fazem parte do perfil procurado pelas empresas. "O valor está na capacidade de gerar resultados positivos", diz Emydio Palmeira, conselheiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).
Segundo Palmeira, não adianta apresentar títulos de pós-graduação se o conjunto das habilidades não atende ao perfil que o cargo exige. Sendo assim, um candidato que tenha apenas o nível superior, mas com experiência de sucesso comprovada, pode ter mais chances de ganhar a vaga de emprego do que aquele que fez especialização, mas nunca aplicou os seus conhecimentos na prática. "Mas se você tem dois profissionais com as mesmas competências, aí sim a pós-graduação serve como critério de desempate", faz a ressalva. Para quem está terminando a graduação, Emydio Palmeira recomenda: "Faça logo uma especialização na sua área e vá para o mercado ao mesmo tempo".
Mercado acadêmico
Diferente do mercado profissional, onde a pós-graduação não sobrepõe outras competências exigidas pelas empresas, no mercado acadêmico, ser mestre ou doutor é uma exigência básica para quem pretende ingressar na carreira docente, principalmente com a expansão do ensino superior particular.
Com a oferta de novas faculdades em Salvador e no interior do Estado, este é um mercado promissor. "Embora não haja uma exigência mínima de mestres e doutores nas faculdades, quanto maior o número de profissionais com titulação, melhor a avaliação do MEC (Ministério da Educação) para autorização e reconhecimento dos cursos", diz a professora Adelaide Rezende, diretora da Strix Educação.
No caso das universidades, o Ministério da Educação determina que, pelo menos um terço do corpo docente, deve ter titulação de mestrado ou doutorado. O salário no meio acadêmico varia de acordo com o plano de carreira de cada instituição, mas, em média, na Bahia, "a diferença salarial entre uma titulação e outra é de 5%", revela.
Concurso público
Na área de concursos públicos, a pós-graduação também faz diferença no processo de seleção. Em alguns casos, pode até mudar a classificação final do candidato, dependendo da pontuação estipulada no edital. "? possível que um candidato em 45º lugar na prova de conhecimento passe para o 5º lugar, depois da prova de títulos", alerta a diretora da Strix Educação, Adelaide Rezende. Segundo ela, os critérios são estabelecidos de acordo com o perfil do cargo e o candidato deve estar atento ao tipo de título que vai ser valorizado.
Se o concurso pretende selecionar profissionais para a função de gerente, por exemplo, a prova de títulos vai valorizar muito mais os cursos na área de gestão, liderança e negociação do que um doutorado que não tenha relação com o perfil exigido no edital. O candidato não deve perder tempo e dinheiro com papeladas desnecessárias. "Na avaliação, só conta o que está escrito no edital", enfatiza Rezende.
Se o edital exige um título com uma carga horária mínima de 360h ou um curso de atualização de 40h, essa informação deve estar especificada nos certificados apresentados. "Não adianta dois atestados de 20h ou um certificado de que é aluno concluinte de mestrado", esclarece.
A maioria dos concursos tem prova de títulos classificatória. O candidato sem título não é eliminado, mas já entra no concurso em desvantagem. Em concursos voltados para uma área específica, de conhecimento diferenciado, essa prova pode valer até 70% do total de pontos. "? o caso de um concurso para selecionar profissionais das ciências atuariais, que trabalham com administração de seguros", exemplifica a diretora da Strix Educação, Adelaide Rezende. Ela informa ainda que os concursos para a área acadêmica também valorizam a prova de títulos, mas cada situação tem uma pontuação diferente, que varia de acordo com as regras do edital.